terça-feira, 26 de agosto de 2014

Eles não usam black blocs (imagens fortes)

(publicado originalmente no dia 6 de agosto de 2014, no facebook)

Esse lance de usar máscaras para dificultar a identificação, colocar fogo em cestos de lixo, usar sininhos e atacar vidraças de bancos é para os fracos, como mostra o vídeo anexado.

De cara limpa, armado com um carrinho de bagagens e gritando palavras de ordem inusitadas (eu quero a minha mala, eu não quero me acalmar), o senhorzinho dispensou a ajuda dos black blocs e pôs em polvorosa o setor de desembarque do aeroporto de Guarulhos na madrugada do sábado, dia 2 de agosto.

Não só ele, é claro. Vemos no vídeo um jovem pedir o inesquecível padrão fifa - só não fica claro se o pedido era para melhorar o atendimento ou para o senhorzinho caprichar mais no vandalismo da porta de desembarque. Uma senhora gritou que pagou mil reais pela passagem num voo doméstico, bem no período em que a Gol oferecia a volta por 39. Sacanagem mesmo.

Um pouco antes dessas cenas fortes, um fortão barbudo quase partiu para as vias de fato com uma funcionária da Gol que tentava explicar o motivo do atraso na entrega das bagagens. O rapaz, entre um VTNC aqui e outro acolá, arrancou o teclado do balcão de atendimento, arremessou o mouse contra a parede e jogou o celular da moça da Gol no lixo.

Outro passageiro pediu o nome da funcionária e a ameaçou, dizendo ser primo de um amigo de um chegado do dono da Gol. Pena que ele não usou esse poderoso contato para apressar a entrega das malas.

Alguns minutos depois, as malas dos passageiros foram colocadas na esteira. O senhorzinho, satisfeito com o seu gesto revolucionário, pegou suas bagagens e partiu, com a sensação do dever cumprido.

Nem conseguiu chegar ao estacionamento, pois ele, campeão de carrinho bate-bate, foi detido pela polícia federal e encaminhado para uma salinha, graças às câmeras de segurança. Teve como companhia o fortão, campeão de arremesso de mouse.

Game Over.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

12º jogador ou quinta-coluna?

A seleção do Felipão e o Felipão entraram para o rol das vítimas da nossa imprensa esquizofrênica. Sabe aquela coisa de dar vaticínios furados, valorizar detalhes insignificantes em detrimento das notícias realmente importantes, criar um clima de profundo pessimismo no País por meio de chamadas negativas e achar que isso pode influenciar de alguma maneira o resultado das próximas eleições - tudo o que fizeram no período pré-Copa? Pois é. Agora é a vez de tentar conturbar o ambiente da seleção.
O técnico da seleção sentiu o golpe e já começou a demonstrar sua insatisfação. Dias atrás, ele detonou a leitura labial feita por algumas emissoras de TV, como o canal ESPN e a rede Globo. Uma espécie de molecagem que pode prejudicar a comunicação entre comandante e comandados e dar pistas aos adversários sobre táticas de jogo. 
Recentemente, ele reclamou da postura exagerada da imprensa em relação ao pênalti cavado por Fred contra a Croácia, enquanto a confissão do holandês Roubben, de que simulou faltas, passou batida. E agora, nossa mídia explora ao máximo os supostos problemas psicológicos dos nossos jogadores. Comentaristas, psicanalistas, ex-jogadores e até fabricantes de lenços são chamados a opinar se é bom para a seleção chorar antes ou depois do hino ou em plena disputa de pênaltis.
Pegando carona no fraco desempenho do Brasil contra o Chile, a imprensa tentou tirar a confiança dos brasileiros em sua seleção. O portal Uol/Folha estampou a seguinte manchete nas horas seguintes à disputa de pênaltis: "Júlio César e trave salvam Brasil de um vexame". Mas, nos dias seguintes, não houve manchetes como "Pênalti duvidoso evita vexame da Holanda" e "Gol espírita salva a Alemanha de desclassificação vexatória". 
No programa Linha de Passe, da ESPN, na segunda-feira, uma enquete entre os "fãs do esporte", como a emissora costuma chamar seus espectadores, apontou a Colômbia com maior possibilidade de avançar na Copa, para deleite de alguns comentaristas do programa.
Entretanto, as dificuldades das seleções mais fortes em vencer seus jogos provaram que nenhum time está livre de apresentar um mau desempenho em campo. Quatro times venceram na prorrogação com muitas dificuldades. Brasil e Costa Rica ganharam nos pênaltis. A Holanda virou um jogo praticamente perdido nos últimos minutos, graças a uma decisão polêmica do juiz. 
Nas análises sobre a atuação do "escrete canarinho" deveria ser considerada a força do Chile, destacada por Felipão havia algum tempo. O time fez boa campanha na primeira fase e era o mais perigoso entre os segundos colocados dos grupos. É óbvio que o jogo seria bem difícil. Como era natural o nervosismo de alguns jogadores diante da possibilidade da desclassificação.
 O que ficou evidente é que as seleções consideradas mais fracas estão jogando de igual para igual com as de maior tradição .Muitas delas, mesmo ficando no meio do caminho, estão fazendo história, com classificações inéditas. Um dos motivos é a forte globalização do futebol, que dá muita experiência internacional a jogadores e treinadores.
 
Só que a imprensa brasileira não quer saber de análises mais profundas. Assumiu de vez o seu papel de partido político. Não quer que mais nada dê certo neste País até outubro. E isso inclui a campanha pelo hexa. Durante meses, a mídia viveu uma dualidade impressionante, pois ao mesmo tempo em que tentava detonar o evento para jogar o possível fiasco no colo do governo, via-se obrigada a fazer a cobertura da Copa da melhor forma possível, por questões ligadas ao mercado e à busca de informação da sociedade.
Como o evento está sendo um sucesso absoluto, praticamente irretocável, só resta agora tentar impedir a conquista da taça - que, na ótica enviesada da imprensa, seria igualmente catastrófica para as aspirações da candidata da situação. E, claro, haveria por parte de alguns críticos aquele prazerzinho especial, bem mórbido, de soltar a frase: "eu não falei que não iria dar certo? Ó vida, ó azar...
No momento, esta imprensa é o 12º jogador, só que dos times adversários. Uma espécie de quinta- coluna, com sabotadores e boateiros agindo contra os desejos dos brasileiros. Felipão já percebeu em quem deve fazer a forte marcação. E acho bom "bater na medalhinha", pois, se deixar a imprensa fazer o seu jogo, o hexa irá para o brejo, frustrando os torcedores do País.


GENEBRA É AQUI! SÓ QUE NÃO...

Ontem, na Arena Corinthians, fui um dos poucos brasileiros a torcer para a Argentina na fase das oitavas da Copa. Muitos dos meus compatriotas acordaram ao som dos relógios de cuco, sentindo-se suíços. Tomaram o seu leitinho Nestlé e partiram para o estádio inspirados nos famosos canivetes, dada a animosidade em relação a "los hermanos".

Houve entreveros pontuais e, bem pertinho de mim, um torcedor corinthiano partiu para as vias de fato depois que um argentino subiu no assento da cadeira para comemorar.

Um dos principais cânticos era "mil, gols, mil gols, mil gols de Pelé...Maradona cheirador", o que prova que o brasileiro é, antes de tudo, ruim de rima.

Foi bem estranho ver um grupo de corinthianos defender Pelé, nosso grande carrasco nos anos 60. Ainda mais que Maradona foi fã incondicional do grande Rivellino, o reizinho do Parque. E tivemos Tevez como ídolo...

Mas, para certos brasileiros, a Suíça está acima de tudo, obviamente. E a Argentina é o inimigo a combater, o país que mais ameaça a nossa soberania, com suas carnes macias, bem acima do padrão friboi, e o seu malbec com aroma de frutas vermelhas intensas e maduras como ameixa seca e notas florais de violetas...

Eles não estão sozinhos nesta parada. Na verdade, seguem galvões buenos e miltons neves, grande incentivadores de uma rivalidade exagerada, ao lado de outras celebridades midiáticas.

Fico agora imaginando uma final de Copa entre Brasil e Argentin
a, cuja taça poderá ser entregue por Dilma e Blatter. Tudo o que o coxinha deseja na vida para vaiar e soltar palavrões à vontade. Nem Gisele Bundchen escaparia ilesa. E o espetáculo seria um prato cheio para Danilo Gentili enfiar outra bandeira no fiofó, como fez semanas atrás.

Minha esperança é que, no encerramento, a guitarra de Carlos Santana acalme os ânimos e promova a paz. Afinal, o guitarrista mexicano ainda é unanimidade...ou também não é mais?


sexta-feira, 27 de junho de 2014

GENTE FINA E BOCA SUJA

Os caras pensam que vão ganhar a eleição com manifestações como a de ontem, na Abertura da Copa. Ao contrário, perdem votos. Mas quem gosta disso deve estar acostumado com ofensas deste nível na intimidade do lar. Deve ser algo normal. "Esse bife tá salgado, vai tomar no c..."; "Mãe, você não passou a minha calça? Vai se f...".

Fico imaginando que tipo de País esses babacas desejam, já que criticam tudo, não aceitam o contraditório e sempre apelam quando se sentem acuados. Realmente, a educação é um problema no Brasil, principalmente aquela que deveria vir de dentro de casa.

Enquanto isso, o senhor Aécio perdeu a chance de posar como estadista, pois, ao invés de reprovar a atitude de parte da elite brasileira, tentou se aproveitar do episódio, o que não deixa de ser baixaria. Justo ele, que já foi vítima de manifestações no estádio, em 2008 ("Maradona, vai se f..., o Aécio cheira mais do que você...").

Isso nos dá a dimensão de como transcorrerá a campanha eleitoral e uma boa ideia do que seria o seu mandato se fosse eleito presidente. Imaginem um pronunciamento à nação: "Sras e srs: informo que acabei com o Programa Bolsa Família porque tem muito fdp se aproveitando da situação. Para aqueles que estão protestando, vão tomar no c..."


ABERTURA

Está na hora? Está na hora. Liguem os holofotes! Plec...plec...plec...plec...e...plec! Estão acesos! Funcionou, para desespero do UOL e da Folha, risos. Agora desliguem e liguem de novo, só para tirar uma ondinha com a imprensa tupinico, digo, tupiniquim, hehe.

Vamos à passagem do som:
_ AAAALÔ...SOM...TEEESTANDO...SOM! Pessoal de Higienópolis, está nos ouvindo? E o povo dos Jardins? Da Vila Olímpia? Do Shopping JK? Se o áudio estiver perfeito, balancem seus cartões de crédito. Ou os passaportes. Sacolinhas da Paco Rabanne também ajudam. Estamos acompanhando os movimentos no telão. Mais rápido, minha gente. Vençam o delay, vocês conseguem. Ajam naturalmente, como se estivessem chegando em Miami. Ok. Deu tudo certo. No problems.

E agora, esquentando os tamborins...plect...peplect..plect...
O surdo, na marcação..dum...dum...dum...
Entra o pandeiro...trikiti...trikiti...trikiti...
Muito bom. Chegou a hora dessa gente diferenciada mostrar seu valor...ôô...ôô...


Tudo pronto? Quase. Só esperando secar um trecho do asfalto ali, na entrada. Vai rápido que o pessoal da imprensa está se aproximando...o Jabor...o Waack...o Merval...podem sujar o calçado de pelica. A secagem leva o tempo de contar uma piada. Mas não se afobe não, que nada é pra já...Bem, vou distraí-los:

- Sabe por que o cal é virgem?
- Porque o cimento é fresco...

Ih, acho que eles não entenderam. Também, nunca botaram a mão na massa, hehe. Mal nos cumprimentaram e foram ligeirinhos para os seus camarotes. Pareciam assustados. Agora sim, está tudo pronto para a abertura. Mas sem muita pompa, né? Quem é da Zona Leste dispensa cerimônias. Se chegar em casa, sempre tem café quentinho na garrafa térmica. Se ficar mais tempo, sempre aparece um bolinho de chuva. Se veio para dormir, a gente pede uma pizza para viagem, um refri de dois litros e paga tudo com o vale alimentação.

Portanto, sem essa de cortar fita ou quebrar garrafa de champanhe numa das traves. Trocar flâmulas pode, mas só depois do show. A Jennifer Lopes avisou que está a caminho. Vai chegar em cima da hora, pois houve pane no Metrô. Ela teve até que trocar de roupa na cabine do operador. Xiii, a Claudia Leitte já chegou. Agora não dá mais para substituí-la pela Negra Li, que, afinal, é uma das donas da casa. Pena.
  

Vamos começar? A Merckel está bem impaciente. Até mostrou a língua para a Dilma. O Putin já avisou que não pode perder tempo, pois tem uma Copa para organizar daqui a 4 anos. Não vai ficar para o coquetel, mas foi flagrado enfiando algumas coxinhas no bolso.

Antes da bola rolar, é de bom tom dizer algumas palavras. Para o mundo, é claro. Em tupi-guarani...brincadeirinha. O que vocês insistem em chamar de Arena, para nós é "estádio", palavra que traz grandes recordações da era mais romântica do futebol. De quando juntávamos o troco do pão para comprar ingressos. Da época do cimento gelado das gerais. Dos alambrados. Da bola de capotão.

Se quiserem manter o nome de "Arena", tudo bem. Mas escrevam corretamente o nome do estádio (risos). "Corinthians" é sempre com o agá no meio. Corinthiano também. Não aceitamos apelidos para a casa nova, principalmente aqueles no aumentativo.


"Itaquera" nunca teve o trema. E nunca tremeu. Na linguagem dos índios, quer dizer "pedra dura". Mesmo que role, continuará sendo dura na queda. Não meu, senhor, não dá para traduzir como Rolling Stone. Escreva assim, sem o trema.

Registre também que esta Copa no Brasil trouxe um importante legado. Basta olhar ao redor. Túnel, viaduto e passarelas. Uma faculdade estadual ao lado. Um movimentado shopping à frente, que será ampliado. A dez minutos de automóvel, um pronto-socorro recém inaugurado. Olhe com mais atenção! Ainda não descobriu o verdadeiro legado. Está bem ali, visível, na cara das pessoas.

Dos Itaquerenses. Dos sãomiguelenses. Dos ermelinenses. Do penhenses. Dos cangaibanos. Dos moradores da Cohab. Veja que há orgulho estampado no rosto de quem passou a ser tratado como cidadão de verdade. Essa gente finalmente abocanhou uma boa fatia dos impostos que o Estado arrecada, geralmente destinados às causas dos bairros mais nobres. E graças à Copa. Graças a quem trouxe a Copa para cá.



Pois hoje, como Itaquera se transformou no centro do mundo, os outros lugares vivem o seu dia de periferia. Quem sabe assim seus moradores sintam na pele o que é viver numa espécie de subsolo. Ou entendam que nesta cidade todos têm direito a uma vida digna. Opa...quem sabe teremos aí mais um legado...

Priiiiii...e começa a Copa das Copas...