sábado, 7 de junho de 2014

Alckmin: mais do mesmo

O “jeito Alckmin” de resolver os problemas do Estado se resume a uma atitude: mandar a PM descer o cacete em tudo o que se mexe. Dizem até que ele enviou um batalhão ao Sistema Cantareira, para obrigar a água a descer pelos canos; e deslocou a tropa de choque na direção da USP Leste para conter a expansão do gás metano no terreno contaminado...
Neste último mandato, a truculência do governador esteve presente no Pinheirinho. Na invasão da Reitoria da USP. Na greve da Unesp. Até nas marchas da maconha.
Na periferia de São Paulo, a presença “ostensiva” da PM na vida dos cidadãos é rotineira – com a palavra as mães de maio. Atualmente, só o movimento dos sem-teto tem sido poupado, talvez porque um dos líderes é filho de um assessor tucano. E não deixa de ser interessante observar de camarote o desgaste dos governos federal e municipal em ano de eleição.
Obviamente, na greve do Metrô, Alckmin não poderia agir diferente do que é seu costume, pois o uso da força faz parte da sua natureza autoritária e por saber que uma parcela dos paulistanos “adora” demonstrações de violência chapa-branca. Contudo, passados 50 anos do golpe, é chocante ver imagens da ocupação militar nas estações do metrô, como se estivéssemos sofrendo um ataque terrorista, semelhante aos do seriado “24 horas”, aquele, do Jack Bauer. Dá arrepios.
Tal ocupação não deixa de ser um atentado. À democracia, principalmente, pois revela a incapacidade deste governador em negociar, e que tenta mandar às favas o direito de greve, mesmo que seja uma paralisação inoportuna, que só angariou a antipatia dos usuários, um tanto atormentados pelas manifestações esquisitas que pipocam na cidade.
Só espero que os metroviários, cujo sindicato tem forte influência do PSTU, reflitam a respeito das estratégias adotadas, como o gesto infantil de pedir catraca livre ao governador. Pedir?
Greves assim só contribuem para desgastar ainda mais o movimento sindical, muito abalado pela paralisação surpreendente dos ônibus municipais por membros da oposição e pelas atitudes eleitoreiras da Força Sindical, que só se preocupa em fazer campanha para Aécio Neves.
Numa sexta-feira chuvosa e sem Metrô, na véspera do início da Copa do Mundo, essa central paralisou a avenida Paulista para protestar contra a “política econômica do governo”. Claro, sem repressão da PM. E, curiosamente, por objetivos alheios à liberdade de expressão.

Foto Uol/Folha

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Que venham os bárbaros...

"Cenas fortes". Como se não bastasse o assassinato brutal e medieval de Fabiane, a Folha de São Paulo coloca em sua página os vídeos com as cenas do linchamento, com o devido aviso do que o internauta encontrará pela frente.

Curiosamente, no caderno que retrata o "Cotidiano". Com o código embed para quem quiser postar em seu blog. Em busca dos cliques a mais, da audiência a todo custo, a qualquer preço. E, como se ainda não bastasse tudo isso, surge o comentário preconceituoso, lembrando que "o Guarujá era tão chique, até que a explosão imobiliária trouxe os trabalhadores do Nordeste". Está ali, sem filtro nenhum, no veículo que abre o espaço para os trogloditas.

Que venham os bárbaros, instigados pelos articulistas neofascistas! Pois esta morte tem, sim, o dedo da mídia. Suas digitais estão lá. No corpo de Fabiane e nos próximos corpos que virão. Dos outros acusados por crimes que não cometeram. Tanto faz se a vítima for dona de casa "que sequestra criança para magia negra", torcedor de time popular "que constrói seu estádio com dinheiro público" ou militante de partido político "que transformou o País num mar de lama" .
Pois, com certeza, neste clima de puro ódio, com tantas mentes subjugadas, com tantas mentiras publicadas em forma de notícia, outro linchamento será apenas questão de tempo.


  

sábado, 19 de abril de 2014

Fuga para as colinas

E essa crise, hein? Não vai passar? Acho que não. Ontem, por voltas das 23 horas, encarei uma hora de fila no caixa rápido do Carrefour. Evidentemente, tratava-se de mais uma leva de cidadãos precavidos, estocando alimentos, antevendo o desabastecimento amplo, geral e irrestrito que virá em breve.
Pois, como aponta o Jornal da Globo, a recessão vai ser braba. O governo continua perdido, batendo cabeça. Foi assim na véspera do natal de 2013. Filas e filas nos supermercados em plena madrugada. Só que agora, em vez do peru, o alvo era o bacalhau. Obviamente, a estratégia é se preparar para os longos apagões que virão. E alimento conservado no sal é sempre a melhor saída, pois muitos ficarão sem energia para ligar a geladeira. Isso se não tiverem que vender a geladeira para pagar as contas, hehehe.
Vi muitos carrinhos com ovos de chocolate do Fuleco, aquele bonequinho da Copa. Traziam, como brinde, uma mochila amarela. E logo matei a charada: esqueçam a Páscoa ou aquele torneiozinho de futebol, pois, como todos sabem, não vai ter Copa...e nem Páscoa. Vai ter é fuga para as colinas. A luta pela sobrevivência. Basta olhar os congestionamentos nas estradas brasileiras. Ou o movimento nos aeroportos. Nas rodoviárias. Ou a cara do William Waack, rs. Todos fugindo, temendo o pior. Vai faltar colina. Crise das brabas...
Um cunhado meu, que queria nos visitar, não conseguiu comprar passagem de Bagé a São Paulo. Nem de Porto Alegre a São Paulo. Ou via Pelotas. Tudo esgotado. Mas conseguiu carona de um cegonheiro em fuga, cujo veículo estava abarrotado de carros novos. Nem tive tempo de avisar o cunhado que estamos com um probleminha aqui, na terra das oportunidades, e que ele deveria trazer sua canequinha para o banho. Cheia, de preferência.

Bem, já está chegando a hora de dessalgar o bacalhau. Deixar de molho por 24 horas. Trocar a água com frequência...água? Mas, como fui esquecer que estamos com um probleminha por aqui? Ai, Jesus...espero de ti um milagre. Daqueles que você costuma fazer. Tipo transformar todo o vinho da adega do nosso governador em água. Não precisa ser Perrier. Schincariol serve! Sem gás, por favor.


Wilker e a Caravana Rolidei

Sim, sim, Bye Bye Brasil é um nosso road movie, o melhor já feito por essas bandas. Filme de 1979/1980, fala das transformações do País em pleno ocaso da ditadura militar e do legado dos ditadores (nem tão explícito assim, afinal, coturnos ainda marchavam na época): a urbanização descontrolada, o abandono de gente simples à própria sorte, a devastação consentida das nossas matas, o entreguismo na exploração das nossas riquezas naturais, o início do consumismo desenfreado e o anúncio, bem disfarçado, do neoliberalismo que viria alguns anos depois.
E, claro, a influência exagerada da TV na vida das pessoas (enfia a antena no rabo, berra Lorde Cigano) e a americanização crescente dos nossos modos e costumes. Do nosso vocabulário, que ajuda a deixar mais chique a abertura de um texto ao se escrever “road movie”...
Se Bye, Bye Brasil fosse feito em Hollywood, certamente teria lugar de destaque em algum parque temático de Orlando. Como brinquedo radical. “Embarque na caravana Rolidei. Viaje por um País Tropical e sinta a aventura de encarar os solavancos nas estradas de terra de um dos lugares mais inóspitos do continente. Conheça o lugar exato de onde sai o mogno que enfeita a sala da sua casa. Dance ao som dos Bee Gees na discoteca Uma Transa Amazônica na margem do rio Xingu. Saia do Brasil e vá ao Brazil. Wow!”
Lorde Cigano, Salomé, Dasdô, Ciço e Andorinha são os desbravadores deste mundo novo, que cabe numa telinha de TV. Onde se começa a falar uma língua estranha, mas que não é necessário entendê-la. Cujos personagens são tão pitorescos quanto desnecessários no script traçado para nós, brasileiros, a partir da abertura lenta, gradual e segura.
Mas nem tudo é controlável, sempre arranjamos um bom jeitinho de improvisar, de dar um drible nos planos do roteirista. Talvez movidos pela saudade. Saudade do Chico Buarque; da boa música; de roça e sertão; das agitações políticas; das lutas históricas dos trabalhadores; e da época em que, bom mesmo, era ter um caminhão, meu amor...
Pois, nessa viagem imaginária, do final dos anos 70 até os dias de hoje, já estamos no Bye, Bye Brasil, Parte Quatro ou Cinco, por aí. A saga da Caravana Rolidei continua. Muita coisa tipicamente nossa já desapareceu. Ou se transformou. Assim, assim, como num passe de mágica do Lorde Cigano - pluft. A caravana tanto avançou que já deixou Altamira para trás (enfia a torre de transmissão de energia elétrica de Belo Monte no rabo, diria Cigano). Muita gente como a gente ficou pelo caminho. A última ficha caiu, para sempre. Também terminaram os créditos do último card, do derradeiro pré-pago e ninguém percebeu. Haja improvisação para enfrentar os novos paradigmas.
José Wilker é mais um grande representante de sua arte a desembarcar da caravana. Vai junto com ele o ator perfeito, comprometido com a profissão, capaz de dar personalidade a qualquer personagem, desde que haja uma boa história para contar. Mundinho, Vadinho, Tenório Cavalcanti, JK...
Com a sua morte, mais uma partezinha do Brasil deixa de existir. Assim como seus próprios personagens e seus criadores, muitos deles oriundos da boa literatura do passado. As boas histórias foram se perdendo pelo caminho, pularam da carroceria a cada freada brusca na estrada tortuosa da cultura brasileira e rolaram pela ribanceira. As nossas histórias....
(Antes dos créditos finais, a grande descoberta de Lorde Cigano: “Tu viu a novidade? O ipsilone no fim. Eu encontrei um gringo em Belém que me ensinou que Rolidey tem ipsilone. Porra, como a gente era ignorante, cara. Hehehe...”)
Fade out, fade out...


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Com a tradição não se brinca...


   Na passagem do ano do cidadão paulista não podem faltar: o peru, o panetone, o espumante barato e docinho, a lentilha, a roupa branca, a oferenda a Iemanjá, a promoção do panetone pague-um-leve-dois, os fogos de artifício, a oferta de peru com preço de frango, pular as sete ondas, castanhas, a postagem de feliz ano novo no facebook e o principal: a falta de água no litoral.

   Pois torneira seca já virou tradição de réveillon. Mais até do que congestionamento na estrada e carnê do IPVA. Há 20 anos as pessoas se divertem com o arzinho que sai dos canos, às vezes mais forte do que o espoucar de sidra Cereser.

   É o que tem mantido a família unida, em busca dos valores essenciais para se viver bem na coletividade. A solidariedade, por exemplo, presente nas vaquinhas para contratar um caminhão-pipa. Ou a fraternidade, quando todos aguardam a vez em volta da bacia, dando preferência aos mais idosos, que relembram o momento mágico de tomar banho de canequinha – usam algumas muito antigas, de folha de flandres, vindas de outras gerações.

   E aquelas cervejinhas, hein? Que transformam os poucos copos limpos em "cachimbos da paz", circulando de mão em mão para reduzir a quantidade de louça a ser lavada.  É essa a bebida responsável pela alegria dos turistas e pelo retorno triunfal do penico de ágata, que dá um toque especial aos quartos, abarrotados de parentes e amigos.

  Já os que dormem na parte de cima dos beliches, sem acesso aos urinóis, adotam um novo ritual no culto à rainha do mar, que ganha mais e mais adeptos nas praias paulistas: ao pular as sete ondas, todos devem dar algumas agachadinhas na água de acordo com as suas necessidades. Boa solução para evitar congestionamento no único banheiro da casa que recebe algumas gotas do líquido precioso em certas horas do dia.


   A situação pode parecer dramática, mas os paulistas se divertem pra valer. Contam piadas e riem muito das declarações do governador, que sempre se diz surpreso com o afluxo de turistas às cidades litorâneas. Certamente, a desculpa esfarrapada virou mais uma tradição de réveillon. E ele, se reeleito for, fará de tudo para mantê-lo. Afinal, com a tradição de certos povos não se brinca.