sábado, 11 de agosto de 2012

Conto olímpico


Um ex-boxeador brasileiro, Touro Moreno, 75 anos, teve 18 filhos e um único sonho: transformá-los em ídolos do seu esporte preferido. A um deles deu o nome de Yamaguchi, em homenagem ao seu ex-treinador, já falecido. Outro filho foi batizado de Esquiva – do verbo esquivar, um recurso utilizado no boxe para escapar dos golpes do adversário.  
Touro o chamou assim por uma única razão: durante os combates, os técnicos não podem dizer nada além do nome do pupilo. Dessa forma, o filho poderia ser orientado sem burlar a regra (“esquiva, esquiva”).
E de luta em luta, de treino em treino, Yamaguchi e Esquiva chegaram às Olimpíadas. Foram vencendo confrontos e ganharam medalhas para o Brasil. O primeiro já garantiu o bronze e lutará para chegar à final. O outro já foi mais adiante, a caminho do ouro. Touro Moreno, em seu casebre no interior do Espírito Santo, alheio ao valor do metal que marcará a premiação dos filhos, sobe agora num pódio imaginário, do qual jamais irá descer.
E nós, brasileiros, ocupando modesta posição no ranking geral da competição, enfim podemos dizer: não vivemos de medalhas, vivemos de histórias assim.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Por mais uma noite


Foi uma daquelas segundas-feiras de maio em que o outono contrariou a sua própria natureza: geralmente, um clima ameno e seco, cuja inclinação do sol forma belas paisagens, em tons contrastantes, ideais para ótimas fotografias. Em vez disso, naquele dia 14 de maio, a estação emoldurou o céu de São Paulo com nuvens ameaçadoras, chuviscos e um friozinho de pé de serra, de provocar nos habitantes uma saudadezinha intensa dos seus cobertores.
Que veranico, que nada! Talvez invernico, disse um colega de trabalho ao lado do bule de café, em frente à mesa de Rosa Maria. Ela apenas esboçou um sorriso e nem respondeu, tão absorvida que estava em repassar aos amigos um dos seus últimos emails do dia: uma piada sobre a masculinidade dos são-paulinos, sua receita principal para rebater as gozações dos adversários em relação à falta de títulos do seu clube do coração na Libertadores da América.
Corintiana fanática, não desperdiçaria a chance de tripudiar sobre os rivais, ainda mais agora em que o time estava indo bem no torneio sul-americano, sem falar do tão esperado estádio, erguido com celeridade no coração de Itaquera. O estoque de piadas deles está acabando, logo ficam sem munição, pensou. E prosseguiu em suas traquinagens virtuais no final daquela manhã cinzenta.
Feito isso, foi almoçar. Ali pelo centro mesmo, nas imediações da Rua Xavier de Toledo. Com o tempo ruim, preferiu voltar logo ao seu trabalho de assistente social e completar mais uma volta no carretel dos anos a fio em que estava servindo ao governo federal e aos seus assistidos.
A tarde custou a passar, mas o resultado do atendimento foi proveitoso, pouca coisa ficou para o dia seguinte. Em dado momento relembrou a frase do colega e creditou ao invernico a disposição para dar conta de todos os processos em sua mesa. Encerrado o expediente, tomou o rumo de casa, um apartamento no Jabaquara, e, no mesmo pique, mergulhou nas tarefas rotineiras de uma moradora solitária, mas com tantos afazeres domésticos.
Lá pelas tantas, adormeceu. E para bem além dessas tantas, o coração parou de bater. O corpo rijo foi encontrado por uma amiga na manhã seguinte, dia ainda nublado, em continuidade à conspiração do outono. Os lençóis, sem dobras de desespero. Objetos rigorosamente em seus lugares.  Sem alarmes estridentes de rádios-relógios. Sem chaleiras que apitam quando a água ferve. Foi bem assim, sono tranquilo. Parecia encantada, como queria Guimarães Rosa.

Mas Rosa Maria continuou sonhando.

Como todos devem saber, os sonhos não são lineares. Desrespeitam os tiques-taques do relógio. É a supremacia da desordem cronológica sobre o desenrolar dos fatos. Rosa tanto poderia estar tirando a sua primeira carteira de trabalho como realizando uma reunião de rotina com os amparados pela Casa Brenda Lee, entidade de apoio a portadores de Aids, que chegou a presidir.
Atendendo vítimas de acidente de trabalho, encaminhando aposentadorias, tomando chope numa churrascaria da rua Augusta ou simplesmente contando piadas (de são-paulino) em meio a um encontro de assistentes sociais em Brasília.
Pois ela ali, de braços cruzados sobre o peito, inerte, agora sonha com o futebol. Ao captar o clima da cidade, se vê no alto da arquibancada de um estádio inacabado, que vai crescendo, tijolo por tijolo, num desenho mágico. Palco de uma alegria fugaz. E sopra muito, sopra forte, a ponto de desviar a bola rasteira, chutada por um atacante adversário, que tinha como endereço certo o canto esquerdo do goleiro corintiano. Ou arremessar a bola do rival de encontro à trave. Ou deslocar um centroavante do outro time na hora de aproveitar um rebote. De sopro em sopro, ao menos em seu sonho, o Corinthians vai.

E Rosa Maria continuará sonhando. Ainda por hoje. Talvez, por mais esta noite. Quando enfim, descansará feliz.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O meu vinil inesquecível



Em 1973, um dos discos mais raros e mais caros do mundo chamava-se Lotus, do guitarrista Carlos Santana. Álbum triplo, foi gravado ao vivo no Japão com os recursos mais modernos da época. Era quadrifônico (quatro canais) que prometia por no chinelo o som estéreo, até então algo relativamente recente, presente em qualquer vitrola portátil, uma grande novidade!
O LP foi um divisor de águas na carreira de Santana. A partir do show do Japão, ele mergulhou de cabeça no esoterismo e no jazz-rock. A pedido do guru Sri Chinmoy, adotou “Devadip” como prenome.
Em sua fase mística, Devadip também andou de namoro com a Mahavishnu Orchestra e gravou um disco com John Mclaughlin; em outro LP, homenageou o saxofonista John Coltrane, falecido nos anos 60, cuja carreira tomou um rumo “transcendental” após usar muito LSD. Dizem que o espírito de Coltrane participou das gravações – os chiados entre uma faixa e outra seriam feitos por ele, amassando papel celofane - mas nada ficou comprovado.
Tais discos chegaram a ser lançados no Brasil, mas Lotus permanecia inédito. Seria uma lenda não fossem os poucos exemplares à venda, vindos de contrabando, que podiam custar o equivalente a uma moto 125 cc, nova. Se eram caros para os endinheirados, imagine para este rapaz, latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, que mal conseguia comprar um LP usado do Belchior.
Pois bem. No início dos anos 80, arrumei emprego. Bom emprego, pois era o único que eu tinha à mão. E numa das rondas rotineiras aos sebos e lojas de disco da região central da cidade, deparei-me com um LP de capa preta brilhante, um figura mística no centro e, nos quatro cantos do quadrilátero, o nome da obra: “Santana Lotus”. Lançamento brasileiro, exclusividade do Museu do Disco, edição mais econômica do que a americana (o som não era quadrifônico).
Não sei precisar valores, mas a sua compra me custaria os “olhos da cara”.  Talvez o preço de uma troca de óleo de uma Lotus (o carro, não o disco). E, certamente, teria de encarar uma rotina de sacrifícios por um bom período.
Vamos lá: reduziria minha idas às casas de suco da rua 24 de maio e arredores; abriria mão do sundae de morango do recém-inaugurado McDonalds; passaria longe da rua Conselheiro Crispiniano em busca de ofertas para filmes super-8; postergaria a aquisição de calças jeans na loja Peter; iria ao Mappin apenas para visitar a seção de saldos, na rua Xavier de Toledo.
Até os pedaços de pizza da Leiteria Americana entrariam na dança: apenas um por mês, enquanto durasse o sufoco. E, claro, ficaria sem comprar discos por um bom período, para me refazer do impacto da aquisição em meu saldo bancário.
Finalmente, numa bela tarde, encarei o vendedor pedante, dei-lhe umas aulas sobre a vida de Carlos Santana (você sabia que ele adotou “Devadip” como prenome...) e fiz a única compra da vida no Museu do Disco, lugar de raridades, mas que não fazia caridades aos pobres roqueiros.
Passados 39 anos de sua gravação, o LP se mantém atual, pois é uma síntese da carreira de Carlos Santana, sob a influência do jazz. Boa parte do que tocou no Japão continua entrando no script dos seus shows mais recentes. Para ouvir Lotus hoje, basta baixar o MP3 em alguma rede de troca de arquivos P2P ou torrent. Mas já vou avisando: nunca terá a mesma graça da era do vinil.
O meu exemplar eu guardo até hoje, como um troféu. Não dou e não empresto, portanto será impossível copiá-lo em fita cassete. É o vinil da minha vida, por tudo o que passei para bancá-lo. O LP ainda tem um bom valor: em bom estado, custa cem paus no site do mercado livre, equivalente a uma troca de óleo num fusca 74. Cotação de hoje. Pois fica a dica. Se quiser, o caminho é o mercado livre, hein? Já disse. O meu, não empresto!

sábado, 24 de março de 2012

"Víamos nossos pés", por Veríssimo

Víamos nossos pés

O outono é a única estação civilizada. A primavera é um descontrole glandular da Natureza. O inverno é o preço que a gente paga para ter o outono, e por isso está perdoado. O verão é uma indignidade.
Eu deveria ser um par de garras serrilhadas escapulindo pelo chão de mares silenciosos, ou pelo menos um falso inglês como o Eliot. Clássicos ao pé do fogo, um vago cachorro e cherry seco contra o catarro. Um gentleman não deve suar, meu caro. As frutas têm suco, não um inglês. Nas colônias, os nativos suavam por nós, e... É sempre assim. Quando chega o verão começo a me imaginar em Londres, estocando meus tintos para o inverno. Mas é claro que não aguentaria duas semanas como inglês sem começar a maldizer a umidade e a sonhar com o sol.
Mas não sou uma pessoa tropical. Minha terra preferida é o outono em qualquer lugar. No outono as coisas se abrandam e absorvem a luz em vez de refleti-la. É como se a Natureza etc., etc. (O verão não é uma boa estação para literatura descritiva. Me peça o resto da frase no outono.)
Sempre digo que a praia seria um lugar ótimo se não fossem a areia, o sol e a água fria. É só uma frase. Gosto do mar. O diabo é que a gente sempre tem na cabeça um banho de mar perfeito que nunca se repete. O meu aconteceu em Torres, Rio Grande do Sul, em algum ano da década de 50. Sim, crianças, em 50 já existiam Torres, o Oceano Atlântico e este cronista, todos bem mais jovens. O mar de Torres estava verde como nunca mais esteve. Via-se o fundo? Via-se o fundo.
Víamos os nossos pés, embora a água estivesse pelo nosso pescoço, e como eram jovens os nossos pés. Havia algas no mar? Iodo, mães-d'água, siris, dejetos, náufragos, sereias? Não, a água estava límpida como nunca mais esteve. Os únicos objetos estranhos no mar eram os nossos pés, e como isso faz tempo. Até que horas ficamos na água? Alguns anoiteceram dentro d’água e estariam lá até agora se não tivessem que voltar para a cidade, se formar, fazer carreira, casar, envelhecer, essas coisas.
Como o cronista explica sua aversão ao verão depois de tais lembranças? É que eu não gostava do verão. Gostava de ser mais moço.



Luís Fernando Veríssimo

Publicada no jornal "Estado de São Paulo" em 28/02/2009
Parte integrante do livro "Em algum lugar do Paraíso"

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Prá não dizer que não sambei com as flores

A crônica da derrota anunciada. Alguém achou que uma das maiores torcidas do País (e uma das mais odiadas) levaria a taça exaltando Lula, "persona non grata" entre a classe média paulistana? Nem que a vaca tussa. Há indícios de que a Gaviões foi claramente garfada, para não levantar a bola do nosso ex-presidente.
A enquete da rede Globo, no sábado, a colocou em 7º lugar, mesma posição que ela ficou após a apuração; houve uma troca esquisita de jurados; as notas baixas para evolução são injustificáveis (alguém deu 8,9!), uma vez que o tempo não foi ultrapassado e nem houve correria; e o estopim para o tumulto partiu de uma pessoa que tem passagem pela polícia, representando uma escola (Império) que não tinha chance de ganhar, muito menos de cair.
O que o teria motivado a roubar as notas, senão estimular o vandalismo dos inconformados pela derrota? Pois eu acho que a temática da Gaviões tem que mudar, para ter chance de ganhar. Parem de falar do Corinthians, de política e do PT. Falem...das flores, por exemplo. Como um dia fez Geraldo Vandré, num certo festival de música. Ou como sempre fazemos quando a repressão aparece renovada. E no próximo carnaval, nós, indecisos cordões, faremos da flor o seu mais forte refrão. "Vem, vamos embora..."