sábado, 30 de julho de 2011

Escuridão paulista

Pois é, governador, o que fazer com as suas crias, aquelas concebidas durante o processo de desestatização do setor energético paulista, já que elas não precisam dar tanta satisfação dos seus atos, como acontecia em tempos de estatização? Só lhe resta falar grosso, apresentar certa pirotecnia para impressionar os ouvintes. A Eletropaulo, distribuidora de energia, sentiu recentemente um pouco da sua aspereza, por conta da demora em restabelecer a energia após tempestades e temporais, como ocorreu recentemente.
A empresa recebeu multa pesada do Procon, de 26 milhões de reais, que não deverá pagar, pois entrará com recurso. E, por conta do pito do governador, ralhando com as malcriações feitas com o consumidor paulistano, teve que investir em propaganda e ações sociais para melhorar a sua imagem.  Feito isso, tudo voltou ao normal, como o rio que retorna ao leito em plena estiagem.
Já com a CTEEP, transmissora de energia, a mão da autoridade máxima no estado não tem sido tão pesada assim. E olha que, só em 2011, esta empresa colaborou para o caos com dois blecautes (ou apagões, como prefere dizer a imprensa tucana) – um no dia 8 de fevereiro e outro na quinta-feira, dia 28 de julho. Ambos na zona sul da Capital paulista. No primeiro apagão, que afetou 2,5 milhões, o governador determinou que CTEEP e Eletropaulo prestassem esclarecimentos ao Procon.
Sabe como é: o caçula quebra o vaso e o mais velho também tem que se explicar. Acontece nas melhores e nas piores famílias. Mas eu não soube nada sobre a aplicação de multas. Nem bolo de palmatórias ou ter que ajoelhar no milho.
Aliás, na época do primeiro blecaute, o secretário de energia disse algo sobre uma nova subestação, prometida pela CTEEP para abril de 2010, mas ainda não instalada. Já entrou em operação, secretário?
Ora, sejamos condescendentes com a transmissora. É uma empresa tão novinha! Nasceu em 1998, por decreto governamental. Se fosse gente, seria adolescente, protegida pelo ECA. E tem como nome de batismo uma sigla tão feia! Além disso, veio à luz no estilo “frankenstein”, formada com partes de uma empresa, partes de outra...foi tudo muito traumático – principalmente para os trabalhadores, catapultados para fora por alguns PDVs.
E que o leitor não esqueça que esta foi a última empresa privatizada no estado pelo próprio Alckmin, governador em 2006. Entregue aos cuidados da ISA, um grupo colombiano de energia.
Já a Eletropaulo tem 112 anos, passou por muitas transformações e transformou a cidade também. Algumas enchentes ocorrem até agora por causa dela. Sua origem está ligada ao capital canadense da antiga Light. Durante a ditadura, passou para o governo federal. No início dos anos 80 tornou-se estadual pelas mãos de Maluf; sobreviveu a Quércia mas foi esquartejada por Covas para posterior privatização das suas partes.
Hoje é controlada pela americana AES, com participação do governo federal, via BNDES. Tem o dedo da Dilma. Talvez isso ajude a explicar o porquê da fúria do governo paulista com aquela empresa anciã.
O fato é que as malcriações das energéticas tem efeito devastador na sociedade paulista. Os estragos são proporcionais ao ramo de atividade de cada uma delas. Para se ter idéia, se desligar um transformador de uma Subestação da Eletropaulo, o blecaute pode atingir dezenas de milhares de consumidores.
Mas, se cair um transformador de uma Subestação da CTEEP, o blecaute pode atingir milhões de pessoas, como ocorreu em 8 de fevereiro e na quinta-feira, dia 28 de julho...
E sabe por que tal discrepância? Porque há dezenas de subestações da Eletropaulo penduradas num único transformador da CTEEP. Calcule aí uma progressão geométrica. Se este último desliga, os outros tantos desligarão também. É o exemplo mais bem acabado do modelo energético adotado pelo PSDB paulista para privatizar o setor: a tal “desverticalização”.  O pano de fundo para o racionamento de energia em 2001, na era FHC. O modelo copiado da Inglaterra, com a grife “Tatcher”.
Antes dos Tucanos (AT), as empresas paulistas eram verticalizadas, ou seja, geravam, transmitiam e distribuíam energia elétrica. Tudo sob um único orçamento. Elas eram donas das suas hidrelétricas, linhas de transmissão, subestações, câmaras subterrâneas e postes de rua.
Na maioria dos outros estados, as energéticas eram basicamente distribuidoras, não houve necessidade de se desverticalizar (Minas Gerais e Paraná mantiveram suas empresas verticalizadas e sob controle estatal). O governo federal contribuía com Furnas e Itaipu, geradoras de energia e também transmissoras. O sistema era interligado, dividido em regiões. A produção de energia elétrica ia para uma grande "cesta" imaginária e era redistribuída de acordo com as necessidades locais. Como não havia agentes privados, a operação do sistema, também remunerada, era mais solidária, sem a pressão por lucros imediatos.
E o melhor: o governador de cada estado não precisava dar pitos públicos e ficar apenas nisso. Podia trocar diretores, refazer investimentos, ouvir a população, tratar a energia elétrica como um bem público...
Depois dos Tucanos (DT), a privatização paulista foi a mais radical entre todos os estados, graças ao porte das suas instalações. Cesp, essencialmente geradora e transmissora, e Eletropaulo, essencialmente distribuidora e transmissora, foram fatiadas por ramos de atividade. Surgiram 5 geradoras ( Cesp permaneceu estatal porque ninguém quis comprá-la até agora), 2 transmissoras (fundiram-se numa só e deveria permanecer estatal por lei, que foi derrubada) e 4 distribuidoras (uma delas manteve a razão social de Eletropaulo).
Todas foram vendidas na "bacia das almas", por um precinho camarada e com financiamento do BNDES. Os novos controladores também ganharam de presente um belo mercado nacional. Na nova interrelação entre eles, todos ganham. Quem paga é o consumidor. Energia mais cara e mais rara.
Em vez de investir na rede, os controladores remetem o lucro para suas matrizes no exterior. E, na última década, houve um rearranjo formidável no controle das empresas. Tecnicamente, o sistema permanece desverticalizado. Mas o capital verticalizou-se de novo. A AES, por exemplo, controla a distribuidora Eletropaulo e a geradora Tietê. Só falta uma transmissora para completar o time - por que não a CTEEP? Sua concessão termina em 2015...
Enquanto o sucateamento aumenta, somos obrigados a passar horas no escuro, a conviver com fiações aéreas de extremo mau-gosto, fugir de tampas de bueiro voadoras e a aceitar explicações rasas e confusas. Tudo por conta dos dividendos.
Ainda bem que temos um governador para falar duro com essa gente, que ele mesmo ajudou a criar, quando presidiu o Programa Estadual de Desestatização. Conhece bem o “idioma” vigente. No meio da tarde de sexta-feira, 29 de julho, Alckmin escalou o secretário José Aníbal para esbravejar. Afinal, o apagão do dia anterior prejudicou 3 milhões de pessoas, numa região em que houve aumento da demanda por energia nos últimos anos. Ele já disse que vai pedir à Aneel multa pesada à CTEEP. No primeiro apagão do ano, o pedido de multa foi rejeitado. Veremos agora.
Mas, dessa vez, o secretário Aníbal não falou nada a respeito da nova subestação, que deveria estar pronta em abril de 2010, para fazer frente à crescente demanda. Esse silêncio significa dizer que ela finalmente entrou em operação, secretário?

E o Carlos Tramontina, hein? O âncora mais apressado da TV brasileira. Aquele que confunde a parte com o todo. Lá pelos anos 1990, em plena era estatal, ele informou, indignado, que a Eletropaulo mantinha uma equipe de 130 jornalistas em sua assessoria de imprensa. Errou. Eram 130 funcionários da Superintendência de Comunicação, 10% de jornalistas.
Na quarta-feira, no SPTV, disse que o apagão era de responsabilidade da Eletropaulo. Errou de novo. A rede da distribuidora desligou porque não recebeu energia da CTEEP. O “pedágio”, dessa vez, falhou.


Bela imagem! Lá na Colômbia. (Banco de imagens da ISA, controladora da CTEEP)


segunda-feira, 11 de julho de 2011

O Vinho no cinema – Sideways, entre umas e outras


Sideways – Entre Umas e Outras, dirigido pelo americano Alexander Payne, está no rol das comédias românticas. Por minha conta e risco, classifico-o como um raro “eno-cult-road-movie”, safra 2004, pois mistura um pouco de tudo. Uma espécie de “assemblage”, como diria um bom conhecedor de vinhos.
“Eno”, vinho em grego, é o pano de fundo para essa história, que se passa em meio aos vinhedos californianos (se bem que o termo poderia remeter àquele famoso sal de fruta, devido ao excesso de degustações dos personagens principais).
Um dos filmes preferidos por enólogos, enófilos e bons gourmets, recebe mais um rótulo: “Cult” - gênero que agrega grupos de fãs devotos, faça sucesso ou não, pouco importando a opinião da crítica especializada. A fama crescente decorre geralmente do sistema "de boca em boca". De email em email. De tuíte em tuíte. Do Orkut ao Facebook. Por pombos-correios. Em torno deste tipo de obra gravita uma legião de admiradores que conhece cada detalhe da produção, do enredo.
Além disso, é visto inúmeras vezes pelo admirador, sempre sujeito a permanentes releituras. “Blade Runner”, o caçador de andróides, é um dos maiores exemplos (qual o significado do unicórnio nos sonhos de Rick Deckard/Harrison Ford? Hein? Hein?). “Blade” teve uma audiência considerável. “Sideways” não. Alcançou fama apenas no País de origem, mas passou ao largo do circuito comercial do Brasil. Entretanto, aqui e acolá, tem os seus fãs de carteirinha: este que vos escreve e mais um monte de amantes de um bom vinho fino.
“Sideways” é também um “road-movie”, pois o personagem principal, Miles, põe o pé na estrada – não como caroneiro, como reza a cartilha de Jack Kerouac. Nem chega a ser um Sá, um Rodrix, um Guarabira ou um Guevara na arte de transitar por caminhos poeirentos. Ele se desloca com o próprio automóvel, com o objetivo principal de afogar as suas maiores mágoas do momento, explicitadas nesta ordem: (1) desilusão amorosa com a ex-esposa; (2) o fracasso editorial de um romance que escreveu; e (3) por estar se achando um lixo de pessoa.
O roteiro de Miles (Paul Giamatti) abrange uma das principais regiões vinícolas americanas, o Vale de Santa Inez, na Califórnia. Mal de grana, ele captura os trocados escondidos por sua mãe. Hospeda-se num hotel de terceira. Vai beber vinhos baratos.
Ele viaja na companhia do amigo Jack (Thomas Haden Church), que transforma a ocasião numa despedida de solteiro, pois o altar o espera na volta.  Péssimo apreciador de vinhos, Jack procura degustar o que mais lhe interessa nesta fase pré-núpcias: a garçonete liberal de uma cantina californiana. Mas ele tem como mérito principal ser uma espécie de inspirador para um filme de sucesso recente: “Se beber, não case”. E como bebe...
Pois bem. Miles é um fracasso como escritor, um fiasco como marido. Busca a própria redenção naquilo que entende bastante, a arte de degustar um bom vinho, mesmo que seja de preço acessível. Entre uma vinícola e outra, experimenta novos vinhos, novos sabores, novas relações sociais.
 Em certo momento do filme, ele expõe a sua preferência pela uva Pinot Noir, cuja mensagem, captada pelos sidemaníacos, fez aumentar as vendas desta casta em 20% nos Estados Unidos. Em outro trecho do filme, Miles faz a execração pública dos tintos merlot, cuja mensagem, também captada pelos fãs, derrubou as vendas deste varietal! Deu para entender agora o que é um filme “Cult”?
O mais curioso é que Miles guarda em casa, para um grande acontecimento, uma garrafa de vinho francês Château Cheval-Blanc, safra 1961, região de Bordeaux, feito com base nas uvas...merlot! Bem volúvel o nosso sommelier!
Mas, afinal, o que o motivará a abrir o raríssimo “Bordeux” quase no final do filme? Para saber, basta assisti-lo, ora. Lembra das garçonetes que eu citei mais acima? Não digo quem fica com quem, mas que elas mandam bem em termos de vinho...
Também sou sincero em afirmar que não deve ser fácil encontrar o DVD nas locadoras. Talvez os telecines da vida o reprisem um dia desses (ou vários dias desses, eh, eh).  Se tiver alguma habilidade na internet, tente baixar via torrent, antes que proíbam. Ou busque no camelô mais próximo de sua residência.
Se nada disso der resultado, e não for amigo de algum sidemaníaco, a única saída é criar o seu próprio roteiro, o Sideways 2: encarnar o espírito de Miles e viajar para o Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Uma vinícola está grudada na outra. A degustação é livre. De taça em taça, você sorve na prática garrafas inteiras de vinho em questão de horas. Já fiz isso em viagem de turismo. Imagine o dia em que eu estiver na pior comigo mesmo, ou souber que quase ninguém leu esta crônica...

(Este texto foi escrito sob efeito de um Marcus James Tannat, produzido na Serra Gaúcha. Safra 2008. Barato e honesto. Não promete nada além do que oferece)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Top 5

Por ocasião do resultado inédito num clássico do futebol paulista no último final de semana, fiz uma lista de cinco músicas cujos títulos remetem à histórica goleada. Usei como critérios de escolha os numerais e certas gírias futebolísticas. Entenda a seleção como singela homenagem ao Timão e discreta gozação ao clube tricolor. Não há qualquer menção a antílopes ou coisas do gênero. E a variedade de ritmos pode agradar a gregos, troianos e aos torcedores dos outros clubes.


Tema de Hawaii 5-0, seriado muito famoso nos anos 70, que está de volta, rejuvenescido. A música é a mesma de antes. Também rejuvenescida.


O baixista de jazz-rock (ou fusion) Jaco Pastorius aparece com a música instrumental "The Chicken", gravada ao vivo em Montreal na década de 1980. Para os fãs do gênero, vale a pena!


Após um clássico, nada melhor do que música.....clássica! Tem Beethoven chegando no pedaço, prá galera. Sinfonia n° 5. Com Leonard Bersntein.


Tim Maia canta "Chocolate", ao vivo, imperdível! (não adianta vir com guaraná prá mim, é chocolate o que eu quero beber...)
  

"Take Five" é uma música clássica do jazz, que consagrou o pianista Dave Brubeck. Lembrei-me dela naquele domingo, ao cair a tarde. Em português, quer dizer "Levar cinco". No video, o guitarrista George Benson dá um show de improvisação. Faz tabelinha com o sax de Sadao Watanabe. Para os amantes do jazz e dos clássicos...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Os jalde-negros

Em plena era da lógica de mercado no mundo da bola, adentra ao gramado o futebol pragmático e globalizado. Veste uniforme impecável, de alta tecnologia, repleto de logomarcas. Pela linha lateral, na zona menos iluminada do campo de jogo, sai direto para o vestiário o futebol pitoresco, folclórico, que beira o romantismo. Aquele das camisas desbotadas, com um pequeno anúncio da Quitanda do Olegário costurado nas costas. Entram em campo os “cases” e saem “os causos”.
Porém, a principal vantagem de se morar num país de dimensões continentais com ampla diversidade cultural é que há sempre um “porém”. É o que salva o pouco que nos resta de história e o que alimenta as nossas parcas tradições. Felizmente, algo escapa dos tentáculos financeiros que controlam a nossa vida. A fugir do pla-ne-ja-men-to. E os raros “causos” precisam ser contados com urgência, antes que caiam no esquecimento.
E vamos de mala e cuia ao Rio Grande do Sul. Mais precisamente, ao Pampa Gaúcho. Município de Bagé, apelidado de Rainha da Fronteira por ser quase divisa com o Uruguai.
Posso dizer que conheço bem este lugar. Visito-o quase que ininterruptamente há 22 anos, mesmo tempo que eu tenho de casado com uma bageense. Cidade bem estruturada, administrada pelo PT há dez anos, oferece ampla gama de serviços.
Um dos destaques é a sua vida noturna. Bares, restaurantes, baladas e danceterias não têm hora para fechar. Se lá pela tantas bater a fome, sempre haverá um ambulante na esquina a oferecer graúdos lanches por preços módicos – cobrados em pilas, naturalmente, apelido do Real por aquelas bandas.
A base da economia é a pecuária, o beneficiamento de arroz e a agricultura em geral. Nos últimos anos, os investimentos em uvas viníferas cresceram muito na região, cuja combinação de solo e clima é ideal para a produção de vinhos finos.
Do futebol local, conheço mais a fundo o Grêmio Esportivo Bagé, por influência do meu cunhado, Paulo, que não tira a camisa do clube nem para dormir. O seu único título estadual foi conquistado em 1925. De lá saiu Tupanzinho, atacante que brilhou no Palmeiras nos anos 60. O uniforme principal é formado por listras verticais amarelas e pretas, semelhante ao do Peñarol, do Uruguai. Ambos são chamados de jalde-negros (jalde: amarelo forte, da cor do ouro).
Mas nem tente afirmar que o Grêmio Bagé inspirou-se no clube uruguaio. Arrumará briga, na certa. Provavelmente, o amarelo dos co-irmãos é homenagem ao sol que brilha mais tempo no céu naquelas bandas orientais. Mas que as camisas são praticamente idênticas, não há dúvida.
O arquirrival do Bagé é o Guarany, alvirrubro, que também teve o seu ápice no futebol gaúcho décadas atrás. O maior nome da sua história é Saulzinho, artilheiro do Vasco também nos anos 60. Nas nossas visitas à cidade, sua casa é parada obrigatória, pois ele tem parentesco com Marta, minha esposa.
Bem, feitas as devidas apresentações, vamos ao “causo”, recentíssimo, mais fresco do que fofoca no twitter, como diria certo analista que deu fama à cidade.
Bem, para os dois clubes de Bagé, 2011 iniciou assim: ambos na 2ª divisão do Campeonato Gaúcho, com possibilidades de acesso para a divisão principal, ao lado dos grandes.
O Guarany, mais conservador, procurou jogadores no próprio Estado. Já o Grêmio Bagé, num lance de modernidade, trouxe, por meio de investidores, um grupo de jogadores dos clubes menores do Rio de Janeiro.
Todos sabem que gaúcho se adapta facilmente em qualquer lugar do País. Mas o contrário é uma incerteza. Não são todos os brasileiros que se dão bem no Rio Grande do Sul. Principalmente nos pampas. No verão, o calor é de rachar. No inverno, o frio é de trincar. Na paisagem, predomina a planície. Não há morros. Muito menos bailes fanques.
E o futebol jogado no interior do Estado é mais disputado do que palco de trio elétrico em parada gay. Resultado: bem antes dos garotos cariocas se adaptarem ao meio-ambiente e esquentarem os tamborins, o Grêmio Bagé entrou em queda livre na tábua de classificação. No 1º turno, perdeu cinco partidas seguidas – uma delas para o rival em pleno estádio Pedra Moura – e empatou uma. Na lanterna do torneio, o sinal amarelo brilhava, anunciando a ampla chance de descenso.
O Guarany estava ligeiramente melhor: quatro derrotas e duas vitórias. Não figurava entre os últimos, tampouco entre os primeiros. Tanto poderia se classificar para a 2ª fase quanto ser rebaixado, dependendo do desempenho nas próximas partidas.
No 2º turno, a troca de técnico não melhorou o desempenho do jalde-negro. Após mais duas derrotas, seguidas, o Grêmio Bagé foi jogar a sua sorte em Rio Grande, contra o São Paulo. Era vencer ou vencer. Perdeu por 2X1. Rebaixado e cabisbaixo, amargou outra derrota na sequência, jogando em casa.
Já o Guarany permanecia em situação crítica, aquela de “ir ou rachar”. Em quatro jogos do 2º turno, perdera uma e empatara as outras três. A próxima partida, decisiva, seria em casa, no estádio Estrela Dalva, contra o arquirrival – àquela altura, um verdadeiro zumbi vagando pelo torneio em busca do repouso final.
Pois estava escrito: este “Ba-guá”, 406º confronto entre ambos, certamente ocuparia lugar na história de Bagé. O Guarany precisava da vitória para tentar sua classificação à fase seguinte. O Grêmio Bagé entrava em campo em busca da honra perdida numa campanha desastrosa.
Estádio lotado. Jogo tenso. Alvirrubros no ataque. E o goleiro jalde-negro pegando tudo. De repente, um ataque do Grêmio...e Jabá fez um a zero. No início do 2º tempo, o Guarany empatou. Mas quem pôs o Grêmio novamente em vantagem? Jabá. Ele, que amargou o banco de reservas ao longo do campeonato. Ali estava a sua chance. E a aproveitava da melhor forma possível.
Aos 36 minutos, novo empate do Guarany. O jogo se encaminhava para o final. Era o adeus dos alvirrubros à classificação, mas poderia significar a permanência na segundona. Porém, o futebol tem sempre um “porém”. Nos acréscimos, um contra-ataque do Grêmio. A bola sobrou para Jabá, que tocou no canto. A bola resvalou no pé do zagueiro e se aninhou na rede. Jabá, o herói da partida. O anjo vingador. Agitando a camisa suada como estandarte, ameaçou dar a volta olímpica, mas foi aconselhado a seguir para o vestiário.
Festa mesmo aconteceu na Avenida Sete, principal da cidade, com direito a buzinaços e bandeiraços. Naquela noite jalde-negra, 14 de abril de 2011,“revival” de 1925, comemorou-se o rebaixamento do rival, a primeira vitória no torneio e, talvez, o entrosamento tardio dos jogadores cariocas, que ainda levaram o Grêmio a mais uma vitória no jogo seguinte.
O resultado desastroso para o futebol bageense pode ser encarado como “o mal que veio para o bem”. Afinal, estão garantidos mais dois Ba-guás em 2012. Na 3ª divisão do estadual gaúcho. Que, como diz Ivete Sangalo, “é lenha”. Ou: mais amargo que tomar chimarrão feito com boldo do Chile.
Pois é, caro leitor. Rivalidade é rivalidade. Nem que a disputa aconteça no paralelepípedo, com bola de meia ou tampinha de refrigerante. Romantismo é bem isso, é o que fica na memória do torcedor e o que falta nesses tempos extremamente profissionais do futebol brasileiro.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Para qual clube torce o UOL?


Uma imagem vale mais do que mil palavras, concordo. Talvez nem fosse necessário postar este texto no rodapé. Mas vale passar as seguintes informações: a capa do UOL é do dia 13 de junho de 2011, por volta das 14 horas. Dia seguinte à vitória do Corinthians sobre o Fluminense, que o deixou na vice-liderança do campeonato brasileiro.
No destaque, no alto da página, uma notícia referente ao São Paulo Futebol Clube, atual líder do torneio. Notícia positiva. Descobrimos que o sucesso do tricolor do Morumbi na conquista do tri brasileiro - pasme - se deve a Wiliam Bonner. Pelo menos na opinião de Muricy.
Do meio da página para baixo, três notícias sobre o Corinthians. Uma neutra (ou neutra demais, leia a chamada do Terra: "morre o ídolo do Corinthians que marcou gol histórico em 1971"); uma notícia negativa: o envolvimento do ex-jogador Gilmar Fubá com o roubo de automóveis, cuja prisão foi divulgada erroneamente pelo UOL, horas antes. E, quase no pé da página, mais uma notícia, bem lá embaixo, de pura sacanagem: após levar tiro do corintiano Castan...
Realmente, é difícil para o grupo Folha seguir o seu próprio manual de redação. Ou disfarçar a sua vocação para ser o porta-voz da elite paulistana, avessa a tudo que cheira a povo. Ex-jogador não é representante do seu ex-clube. E o clube também não é responsável pelas atitudes dos seus atuais jogadores fora do campo, como o "tiro" (sem querer, de chumbinho) desferido por Castan.
Mas o que a página insinua é que o clube do Parque São Jorge está sempre relacionado às notícias policiais, fazendo coro com as brincadeiras dos torcedores de times adversários. Graças ao UOL, Gilmar Fubá ficou entre os TTs do Twitter no final desta tarde. Com a ajuda do UOL, Gilmar Fubá já foi condenado nas rede sociais. E, com ele, o clube do Parque São Jorge.
A página de hoje à tarde não entra para o rol das infelizes coincidências. Basta observar com mais atenção a postura da Folha de São Paulo e dos seus filhotes editoriais com o futuro estádio do Corinthians em Itaquera: vai da má vontade à pura zombaria em questão de parágrafos. O tom jocoso está presente no apelido que deram à obra: "Itaquerão", nome estranho para uma população que não tem por hábito colocar os seus estádios no aumentativo. Não se ouve falar pela cidade em Morumbizão, Canindezão, Belmirão, e por aí vai.

PS: A elite paulistana e os jornais que a representam não querem a abertura da Copa em Itaquera. Ou melhor, não querem jogo enhum da Copa em Itaquera, bairro pobre da zona leste paulistana. Para eles, a alternativa é deixar São Paulo fora do torneio mundial, já que o estádio do Morumbi está descartado. 
Parece que o plano está dando certo. A CBF pensa em levar a abertura a outra capital. Para deleite de alguns moradores de Higienópolis, que não aguentam mais ouvir falar em"gente diferenciada". E para alívio do governador paulista, que teria que investir pesado em obras sociais numa região extremamente carente.