sexta-feira, 9 de junho de 2017

De repente num domingo...

   A primeira vez que o vi jogar foi num longínquo domingo de junho de 1997, totalmente por acaso. Mais precisamente, há 20 anos. Buscava algo interessante na programação da tevê aberta para enriquecer o meu tardio café da manhã, por volta das 10 horas. Rodei canais e fui parar na TV Record, que transmitia a final de um torneio de tênis na França.
   Assisti aos últimos games do 3º set tentando identificar quem era o sujeito de camisa amarela, magro, cujos cabelos desgrenhados lembravam um esfregão invertido e em movimento, semelhante aos que atazanaram a vida de Mickey no desenho animado O Aprendiz de Feiticeiro.
   Pois bem: o “Mickey” da vez era Sergi Bruguera, veterano do nobre esporte, ex-campeão de Roland Garros e bem ranqueado, mas de quem nunca mais ouvi falar depois daquele dia. Vencê-lo no principal torneio no saibro acabou sendo o seu cartão de visitas para boa parte dos brasileiros, órfãos de um ídolo do esporte nas manhãs de domingo, desde a morte de Ayrton Senna.
   Até aquele instante, para a grande maioria dos brasileiros, ”Grand Slam” nada mais era do que uma espalhafatosa lambida num sorvetão de chocolate. Depois daquele domingo, o Brasil tomou conhecimento de que um catarinense, muito jovem ainda, “pilotava” como ninguém uma raquete, fosse no saibro, no cimento, na grama ou até mesmo no paralelepípedo, se necessário.
   Os três anos seguintes serviram para consolidá-lo entre os “tops” do planeta. Em 2000, quando se tornou o número 1 do ranking, o Brasil já havia aderido à Gugamania. Raquetes e outros acessórios venderam como água por aqui.
Pegadores de bolas viraram professores da noite para o dia, ensinando os simpatizantes do esporte a dar os primeiros voleios. O Gatorade se transformou em bebida da moda nos clubes esportivos. Muitos recém-nascidos foram registrados com o nome de Wilson, já que Head não "pegava" bem. Os casos de doenças na garganta aumentaram, por causa daqueles que tentavam imitar os seus gemidos.
   De tudo o que vi em sua carreira, guardo na mente confrontos de mexer com os nervos (Max Myrni, no Aberto dos Estados Unidos em 2002), embates épicos (Safin e Kafelnikov em Roland Garros), feitos heroicos (vitórias sobre Sampras e Agassi no Masters Cup de Lisboa), exemplos de superação (o “passeio” que aplicou em Federer já com as dores no quadril), situações inusitadas (a dificuldade para superar um holandês com câimbras na Austrália) e, claro, a prova de que existe ressurreição: de quase moribundo diante de um americano desconhecido, passou a acelerar corações no Roland Garros de 2001.
Há alguns anos, acompanhei pela tevê, emocionado, a sua turnê de despedida em vários circuitos do Brasil e do mundo. Ficou a sensação de que poderia ter ido mais longe, quem sabe acumular mais alguns "rolandgarros" se a dor no quadril não o incomodasse tanto.
   Sem Guga, o circuito nunca mais foi o mesmo, apesar de sempre ter contado com ótimos tenistas desde a sua aposentadoria. Hoje em dia tem de tudo, para todos os gostos: além daqueles com técnica excepcional, encontramos a turma dos anabolizados, dos extremamente frios, dos mimadinhos e temperamentais, dos gigantes que raspam as nuvens na hora do saque e dos que não tem consoantes no nome.
   Mas quase nenhum com apelido carinhoso e simples de se prenunciar ou que vá comemorar com a mãe na plateia, subindo pelas arquibancadas. Nem alguém capaz de desenhar um coração numa quadra de saibro como prova de gratidão ao povo francês. Aí, então...nem pensar.

Valeu, manezinho!

Guga comemora o terceiro título em Roland Garros (2001)

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